(ou uma reflexão sobre o quanto podemos nos tornar mais felizes quando nos olhamos)

          E não é que a Suécia está surpreendendo o mundo das artes com o belo filme “Meu nome é Agneta!?- Netflix 2026”.  Lançada neste ano, a película vem mostrar que nem só de ABBA vivem os suecos, pois, acabam de produzir um filme recheado de conteúdo psicológico que poderia render muitas abordagens e interpretações. Não utilizo o termo spoiler, – neologismo derivado do verbo inglês “estragar”-  pois não estou estragando nada, então, para quem não gosta de antecipações  recomendo que pare esta leitura, vá assistir ao filme para só depois voltar aqui para continuar, e caso queira, emitir sua opinião e contribuir com sua crítica, sempre bem vinda. (É possível fazê-la pela opção ‘contato’ disponível em meu site e que será respondida.)

          Agneta representa uma mulher sueca que, aos 49 anos, vive uma existência marcada pela rotina, por um casamento esvaziado e pela sensação de invisibilidade; desempregada, aceita trabalhar como babá em um pequeno vilarejo no sudeste da França (região da Provença), onde sua vida sofre uma transformação inesperada. Ela não aparece inicialmente como alguém em uma grande crise, pois trabalha, é casada, tem filhos, cuida da casa e cumpre suas responsabilidades. O problema é justamente esse: sua vida funciona, mas ela não está verdadeiramente vivendo nela, está apenas desempenhando os papeis de esposa, mãe, funcionária, dona de casa, cuidadora. Funções dignas, claro, mas que deveriam nos deixar em estado de alerta quando se resumem apenas à execuções, pois, quando deixamos de existir para apenas termos valor pelo que fazemos, nossa identidade some. Tente responder à pergunta “Quem sou eu? ” evitando citar seus papéis ou seus afazeres, pois se sou o que faço, ao deixar de fazê-lo, no que me torno? Ser é existir e fazer é complemento; ao me descobrir em “quem sou”, tudo o mais se tornará mais leve.

          No filme, a trama se dá em andamento  à chamada crise da meia-idade, onde os filhos já saíram de casa, o marido encontrou interesses próprios e o seu trabalho perdeu significado. Aquilo que durante décadas dava sentido à sua identidade, cuidar dos outros, já não ocupa o mesmo espaço. Surge então uma pergunta inevitável à protagonista: “Quem sou eu quando já não preciso ser necessária para todos?”.  Já nos deparamos com esta pergunta existencial alguma vez? Em caso afirmativo, talvez pudemos então começar a perceber que o tempo é finito e que continuar vivendo exclusivamente segundo expectativas externas pode significar chegar ao fim da vida sem ter experimentado aquilo que realmente desejávamos. Agneta sempre sonhou em conhecer a França mas seu marido nunca a apoiou, e, mesmo morando a uma distância relativamente próxima, nunca esteve na Cidade Luz, seus poucos prazeres são comer queijos e tomar vinho, ainda que, acreditem, trancada em seu quarto e às escondidas do marido! Quantas coisas próximas de nós deixamos de usufruir, ou, quantos desejos vamos protelando, empurrando para um depois que nunca chega…  Acabamos agindo como Agneta.

          Para ela, ao chegar, a França funciona simbolicamente como um espaço onde ninguém conhece sua antiga identidade; lá ela não é a esposa de Magnus, a mãe dos filhos, não é a funcionária do escritório, ela simplesmente é Agneta! É como se agora ela dissesse: “Antes de ser esposa, mãe, funcionária ou qualquer outra coisa, existe uma pessoa aqui.” E assim ela vai descobrindo como viver sendo quem gostaria de ser e sem a cobrança por desempenho de papeis. Como seria bom se nos déssemos conta de que há algumas coisas que não queremos (e talvez nem precisemos mais) fazer, e, melhor ainda, se tivéssemos coragem para renunciá-las em nome de nossa saúde e bem estar!

          A idade de Agneta não é uma coincidência, ela simboliza o que muitas vezes chamamos de crise da meia-idade, quando o envelhecimento se torna perceptível e muitas coisas, quando conseguimos pensar, tornam-se mais claras e parecem não ter mais sentido. Ao desejarmos viver muito estaremos, logicamente, nos propondo a envelhecer, então, envelhecer é um caminho a ser trilhado e não evitado, e para tanto precisamos refletir sobre nossa identidade (quem somos) e qual o sentido que damos para a vida.

          Se, como Agneta, você não tem quem te escute e está disposto a de fato viver a vida e poder falar sobre isto, já pensou que o espaço de uma sessão de psicoterapia pode ser tão transformador e maravilhoso quanto ao Vilarejo de Provença com seus queijos, vinhos e o caloroso acolhimento humano?  Ah! O filme – sueco –  encerra, é claro, com uma bela música dançante… adivinhem de quem?

César Augusto – psicólogo

Texto publicado em outubro de 2026