Quando o dormir mal estiver relacionado às emoções, procure um psicólogo (ilustração gerada por IA)

 

          Houve um tempo em que falar-se de “camas separadas” remetia quase que automaticamente a crises conjugais. A imagem popular era a de casais brigados, distantes emocionalmente, vivendo um momento difícil ou o fim do amor. A própria música brega eternizou essa ideia: “camas separadas, beijos sem calor”, mas os tempos mudaram e a ciência do sono também. Hoje já se fala em divórcio do sono, um conceito que descreve a escolha de casais que optam por dormir separadamente para preservar algo fundamental: a qualidade do descanso e, muitas vezes, a do próprio relacionamento.

         Dormir em camas ou quartos separados não significa necessariamente distanciamento afetivo, até por que, em muitos casos, representa justamente o contrário: aproximação, uma tentativa consciente de proteger a saúde, o humor e a convivência do casal. Quem divide o quarto conhece bem algumas situações comuns: ronco, televisão ligada, luz acesa, horários diferentes para ir deitar-se, inquietação durante a noite, uso de aparelhos eletrônicos ou até rotinas profissionais incompatíveis. Obviamente que, ao compartilhar o quarto, o parceiro pode estar atrapalhando o outro mesmo sem querer.

         Uma pesquisa global encomendada recentemente por uma revista médica ouviu mais de 30 mil participantes em 13 países e trouxe dados interessantes: mostrou que 32% das pessoas apontam roncos, respiração alta ou falta de ar como principais causas de interrupção do sono. Também aparecem como fatores frequentes para noites mal dormidas o fato de o casal ir deitar-se e/ou acordar em horários diferentes, e, ainda, a queixa sobre aqueles que se movimentam muito durante a noite, tendo o dito “sono agitado”. No caso de quem trabalha em turnos diferentes, por exemplo, o simples ato de entrar ou sair do quarto, acender luzes e fazer barulhos pode interromper o descanso do parceiro. Vejam que o número de pessoas que relatam dificuldades em dormir é alto e significa praticamente o sofrimento de um em cada três dos pesquisados!

         O que agrava o quadro é que noites mal dormidas raramente ficam restritas ao período noturno, elas cobram um preço no dia seguinte e na saúde a médio e longo prazo. Já a privação crônica do sono pode trazer consequências importantes e graves, pois pode afetar o Sistema Nervoso Central gerando irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações de humor, fadiga, aumento do risco cardiovascular, ganho de peso e maior vulnerabilidade a sintomas depressivos e ansiosos. Agora imagine o estrago em anos de convívio e com interrupções frequentes do sono. Muitas vezes, o problema deixa de ser apenas o cansaço e ganha enormes proporções quando o relacionamento também começa a sofrer, pois, pessoas cansadas tendem a ficar mais impacientes e menos disponíveis emocionalmente, o humor muda, a tolerância diminui e pequenas situações podem gerar grandes conflitos.

         Dormir em separado não significa amar menos, existem relatos de casais que vivem relacionamentos saudáveis e felizes mesmo dormindo em quartos diferentes. Em alguns países asiáticos, como Índia, China e Coreia do Sul, a pesquisa mostrou índices elevados de casais que relatam dormir longe dos parceiros, muitas vezes sem qualquer constrangimento ou interpretação negativa. Acredito que a questão central talvez não seja onde se dorme, mas como o casal constrói acordos que funcionem para ambos, até por que dormir separado também não significa improvisar desconforto: sair para o sofá da sala ou dormir mal em outro espaço pode piorar a situação. Quando essa escolha é feita, ela precisa ser pensada em buscar conforto e qualidade.

         Com relação ao dormir, cada pessoa tem suas particularidades: algumas dormem bem com a luz acesa, enquanto outras precisam de silêncio absoluto; algumas funcionam adequadamente com poucas horas de sono, ao passo que outras necessitam de mais tempo para recuperar suas energias. Não existe uma fórmula universal, e, talvez, o ponto principal seja o de que dormir bem não é um luxo, mas uma necessidade biológica.

         Outro aspecto importante é considerar que o sono muda com a idade, basta perceber a quantidade de horas dormidas numa comparação entre adolescentes e idosos. Se observarmos então com um recém-nascido, a literatura irá dizer que ele necessita (até atingir três meses de idade) cerca de 14 a 17 horas de sono por dia. Profissionais que trabalham com medicina do sono observam que casais mais velhos tendem a priorizar mais a qualidade do descanso, ao mesmo tempo, muitas pessoas dessa geração carregam crenças de que um casal precisa enfrentar tudo junto (inclusive noites ruins) porque isso faria parte do compromisso conjugal. Mas existe uma diferença importante entre enfrentar dificuldades juntos e permanecer constantemente em sofrimento, pois relacionamentos saudáveis envolvem parceria, cuidado e adaptação.

         Agora, e se o problema não estiver no parceiro? Antes de concluir que camas separadas são a única solução, vale investigar sobre o que realmente está lhe tirando o sono; ronco intenso, apneia do sono, insônia, dores físicas, ansiedade ou outros problemas médicos precisam ser avaliados adequadamente. Em muitos casos, procurar orientação profissional e investigar as causas pode resolver a situação, porém, cabe o alerta de que dormir medicado pode ajudar alguém a adormecer, mas normalmente não ajuda a resolver aquilo que mantém a mente desperta.

         Do ponto de vista psicológico sempre faço uma pergunta básica: O que está tirando o seu sono? Perdas, dificuldades financeiras, problemas familiares e/ou no trabalho, conflitos, preocupações constantes ou questões emocionais, frequentemente aparecem durante a noite, quando o silêncio deixa brechas para pensamentos que foram adiados durante o dia. É nesta hora que uma boa psicoterapia pode prestar o auxílio que se busca, trazendo o espaço e o tempo necessário para as reflexões.

         Uma boa noite de sono também ajuda a construir bons relacionamentos, e, se o que te tira o sono for de ordem emocional, psicológica, quem sabe, antes do final do inverno você possa voltar a dormir de conchinha? Ame-se.

César Augusto – psicólogo

Texto publicado em junho de 2026