"Uma nos instrui, nos aconselha... a outra (a jovem) quer tudo aprender... A jovem acredita ter dito tudo despindo o vestido; mas uma mulher... se esconde sob mil véus... afaga todas as vaidades... Chegando a essa idade, a mulher sabe consolar em mil ocasiões em que a jovem só sabe gemer.” In A mulher de 30 anos, de Honoré de Balzac – Sec XIX

 

         Há uma nova mulher que precisa ser vista e falada: aquela da faixa dos cinquenta anos. Se, por um lado, há o peso da idade, por outro, há sempre a possibilidade de uma compensação pela maturidade, pela experiência e pela sensação de liberdade conquistada. Mirian Goldenberg é uma carioca que já viveu essa faixa etária e, como doutora em Antropologia Social, realizou uma pesquisa comparativa entre essas mulheres no Brasil, na Espanha e na Alemanha, da qual se podem extrair interessantes informações.

         Destaca que, naturalmente, nesse período aparecem preocupações com relação ao corpo; afinal, os sinais do tempo vão deixando suas marcas: artrites, dores na coluna, algum ganho de peso, mas, principalmente, mudanças na aparência. Outra grande preocupação apontada diz respeito à dificuldade de encontrar um parceiro, o que é considerado um verdadeiro bem para aquelas que mantêm um relacionamento estável. Paradoxalmente, é uma idade em que a sensação de liberdade se manifesta com mais intensidade, visto que a obrigação de cuidar do marido e dos filhos já não é tão intensa como nos primeiros anos de uma vida conjugal, além de poderem assumir uma vida autônoma com menos preconceitos do que em outras épocas.

       Respeitadas as particularidades culturais, diferentemente das compatriotas brasileiras, para as alemãs as principais preocupações dizem respeito à qualidade de vida conquistada. Ao invés de se sentirem velhas e acabadas, elas se sentem mais maduras, seguras e confiantes, sem preocupações com a sexualidade ou com aparentar menos idade do que realmente têm, o que consideram uma indignidade. Todavia, deste lado do Atlântico, para muitas mulheres o envelhecimento é tido como uma grande perda de vitalidade e de sexualidade, o que não precisaria ser assim.

            Felizmente, nem todas as mulheres pensam da mesma forma. Aquelas que descobriram que apenas olhar para o que estão perdendo não leva a lugar algum (além do Vale da Lamúria) deram novos rumos às suas vidas. Contrariamente às mulheres que ficam se comparando com as de outras faixas etárias ou que se encontram presas a um modelo anacrônico de velhice, a nova mulher sabe que a vida pode ser muito melhor quando se tem um projeto. Com a simples constatação de que o amadurecimento é uma continuidade de sua existência, e não um “problema” que surgiu do nada, as mudanças decorrentes acabam sendo melhor administradas. Buscar novas formas de prazer, de relacionamentos sociais, de compreensão sobre o quanto pode ser mais feliz aproveitando suas experiências e de aceitar as imperfeições e mudanças em seu corpo coloca essa mulher em sintonia com a vida.

          Em outra pesquisa, recentemente realizada em nove países do mundo, 93% das brasileiras participantes manifestaram queixas sobre os preconceitos sofridos pelas mulheres maduras, entre eles a ideia de falta de produtividade no trabalho ou o suposto desinteresse pelo sexo. Isso é corroborado pela antropóloga ao afirmar que as mulheres brasileiras não gostam de ser chamadas de “senhora”, que gostariam de continuar sendo paqueradas na rua e de serem chamadas de “gostosa”, ou então reclamam da falta de os homens olharem mais para seus corpos.

         Sem qualquer exagero — e até de forma elogiosa, nesse contexto —, a moderna mulher de 50 anos pode ser comparada às balzaquianas descritas na primeira metade do século XIX por Honoré de Balzac em sua obra A Mulher de Trinta Anos (epígrafe). De lá para cá, as descobertas científicas, os avanços da medicina e das áreas da saúde mental deram mais qualidade de vida e, por conseguinte, longevidade a todas. Dito isso, àquelas que se encontram confusas sobre suas identidades, fica um aviso: ainda é tempo de muitas conquistas e felicidades; basta ter um projeto para esse novo momento de vida. Posso assegurar que o trabalho de uma orientação psicológica séria e profissional, é capaz de propiciar o momento e o espaço adequado para as reflexões necessárias ao seu crescimento pessoal. Acredite em si mesmo.

César AR de Oliveira – psicólogo

texto publicado em maio de 2026