Faltar às sessões de psicoterapia é mais comum do que você imagina; superar esta barreira faz parte da cura.

         

         Iniciar um processo de psicoterapia é um passo corajoso, já escrevi sobre isso em um texto voltado especificamente àqueles que faltam à primeira sessão (link no rodapé). Agora, esta abordagem propõe uma reflexão para quando as faltas começam a ficar frequentes, quando passam a surgir “coincidências de consultas médicas/odontológicas” marcadas no mesmo horário da sessão de psicoterapia, ou, então, outras tantas alegações dadas.  Mas, assim como o avião que decola, o grande desafio dos psicólogos pilotos é manter a aeronave da psicoterapia em voo, é dar continuidade às sessões. Por tratar-se de um trabalho que só pode ocorrer quando ambos participam, a ausência de uma das partes obviamente inviabiliza com que aconteça a sessão de psicoterapia. Vamos considerar que as eventuais faltas do psicólogo poderiam ser vistas como faltas ao trabalho, possíveis de ocorrer com qualquer profissional de qualquer área, pois todos estamos sujeitos a doenças e imprevistos que exigem atenção imediata. 

          Tratemos agora das faltas do cliente (sou da linha que não utiliza o termo paciente, muito associado à doença) considerando que não se trata tão somente de irresponsabilidade, de faltar a um compromisso marcado. É claro, até certo ponto, há faltas dos clientes que podem ser justificadas. Todavia, algumas pessoas começam suas sessões de psicoterapia por pressão familiar, por sugestão em ambiente de trabalho ou escolar, pelo desejo de namorado (a) ou ainda por cobrança própria, porém, sem comprometimento; daí que as faltas, nestes casos, passam a ser frequentes e podem levar ao abandono da psicoterapia.  Mas isto é um fenômeno já esperado e compreendido por nós psicólogos, pois, estudos de revisão da literatura científica nacional, apontam que a taxa de abandono da psicoterapia no Brasil varia entre 38% e 49,5% e que a interrupção unilateral da frequência às sessões é mais comum do que se imagina. Um estudo publicado na Research, Society and Development analisou prontuários de clínicas brasileiras e constatou que o número de faltas nas semanas iniciais é o maior preditor estatístico de que o paciente irá abandonar o tratamento em definitivo: cerca de 25% das evasões se dão entre a 1ª e a 5ª sessão, ou seja, de quatro pessoas que iniciam um tratamento psicoterápico, uma delas possivelmente não concluirá o primeiro mês. Fugir do enfrentamento, compreendo, é uma forma de buscar defesa, mas não é a solução.

          É claro que as desistências também se dão por outros motivos, um deles, pode ser a dificuldade financeira para manter os pagamentos (cerca de 20% dos casos), outros, a falta de empatia com o psicólogo, a dependência de terceiros para leva-lo ao consultório e até mesmo, na modalidade de atendimentos à distância (online) a falta de internet ou de ambiente que lhe dê privacidade em sua casa para realizar as sessões. Outro dado encontrado no citado estudo, aponta que aproximadamente 7,6% dos pacientes recuam por medo do julgamento social (ainda ruminam “psicólogo é para louco!”) ou pelo desconforto emocional de acessar dores profundas. Para algumas pessoas, chorar durante uma sessão é muito constrangedor, mas é justamente a possibilidade de externar com sinceridade seus sentimentos, de, literalmente, pôr para fora o que precisa ser dito, que é possível iniciar-se o processo de cura e de  alívio emocional. Em um ambiente seguro e acolhedor como a psicoterapia, as lágrimas deixam de ser um sinal de fraqueza ou constrangimento e passam a ser uma ferramenta poderosa de libertação. Ao dar vazão ao que estava reprimido, abre-se um espaço para a compreensão das dores e para a ressignificação de experiências e acolhimento.  Olhar para si mesmo exige uma energia mental que, às vezes, o paciente não consegue sustentar naquele momento, mas que é parte do processo para sua elaboração e consequente superação.

          Ainda sobre as faltas, é de se considerar que elas dificultam a organização da agenda do psicólogo, principalmente quando não são avisadas com antecedência, o que possibilitaria que tais horários fossem destinados a outras pessoas necessitadas, além de gerar desconforto no ausente aumentando-lhe sentimentos de culpa ou de frustração por não dar conta de seu propósito.

          Ajustes de horários, alinhamento de expectativas e a reavaliação de metas terapêuticas podem salvar o processo de desenvolvimento pessoal de quem procura pela psicoterapia. Quando tais dificuldades surgem, o melhor caminho não é desaparecer, mas sim conversar abertamente com o psicólogo, afinal, é para isso que serve a psicoterapia, para poder falar sem ser julgado, ser escutado para que se estabeleça uma compreensão capaz de lhe auxiliar na superação que for necessária.

César Augusto – psicólogo

Texto publicado em julho de 2026

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