Sim, existo, sou de carne e osso, tenho família, décadas de vida e de experiência como psicólogo, e, por isso, eu não tenho medo da inteligência artificial. É claro que ela pode saber mais do que eu, pode ler, em segundos, aquilo que eu levaria uma vida inteira para estudar, conhecer Freud, Jung, Rogers, Winnicott, Lacan, Frankl e milhares de outros autores. Pode organizar pensamentos, reconhecer padrões, fazer perguntas brilhantes e produzir respostas que, às vezes, poderão parecer mais inteligentes do que as minhas.
Mas, enquanto ela sabe sobre a vida existe uma diferença fundamental: eu a vivo, já sorri, chorei, esbravejei, fiquei em dúvidas, tive medos… e essa diferença muda tudo.
Enquanto uma máquina pode analisar a palavra “perda” eu sei o quanto que perder alguém pode deixar uma cadeira vazia na mesa, um silêncio dentro de casa e uma saudade que aparece inesperadamente numa manhã qualquer. Se uma máquina pode explicar o que é ansiedade, eu já a senti, e sei que, para algumas pessoas, ansiedade é também acordar de madrugada com o coração acelerado e não conseguir explicar a ninguém o medo que existe dentro do peito. Se a IA pode definir o luto, eu posso permanecer em silêncio diante de alguém que chora e compreender que, naquele momento, nenhuma definição é necessária.
Trabalhar como psicólogo é estar em um lugar de escuta, e isso não é unicamente uma interpretação de palavras (coisas que a IA faz), é sentir a entonação da voz, seus tremores, fraqueza ou firmeza, é também perceber o que não foi dito. É lembrar-me das aulas do Professor Antônio Carlos quando nos ensinava sobre o quanto se escuta ouvindo o silêncio, é poder suporta-lo, legitimamente, dar o apoio que a condição pede.
Como psicólogo, sou melhor do que uma IA por que consigo perceber um olhar desviado, um tique, um pé balançando ou os dedos de uma mão tamborilando na poltrona. Aprendi a reconhecer uma defesa e a saber quando uma pergunta precisa ser feita ou até mesmo, momentaneamente, quando ela deve ser evitada. Posso perceber ainda que a pessoa passou vinte minutos falando de outra coisa justamente para não precisar responder, ou então, ao levantar-se para sair, dizer… “Só mais uma coisinha…” e largar em meu colo a bomba que segurou durante toda a sessão, aliviando-se por deixa-la comigo, mas sem resposta (ainda) para si.
Li sobre um estudo que diz que o Brasil definha em bem estar e recorre à IA para tratamento. Os dados aparecem no Mind Health Report 2026, pequisa anual de uma seguradora que mapeia a saúde mental e o bem estar psicológico mundialmente e complementa que a população brasileira demonstra grande abertura para inovações tecnológicas no autocuidado, porém, reflete índices severos de esgotamento profissional e vulnerabilidade emocional e isso implica em um maior potencial para o desenvolvimento de doenças mentais. O mais grave é que de cerca de 40% dos brasileiros que autoafirmam sofrer de alguma condição de saúde mental, apenas 27% deles possuem um diagnóstico médico. Se já sofríamos com automedicação, agora surge o autodiagnostico, induzido por IA. Mas isso não é exclusividade tupiniquim, o mundo todo utiliza da IA dessa forma, porém, o dado alarmante, é que nós, brasileiros, somos os que mais procuram este tipo de ajuda na IA.
Questionar o uso de IA como substitutivo à psicoterapia, não significa que sou avesso a tecnologias; é impossível viver sem a presença da IA nos dias de hoje, ela se encontra onde sequer imaginamos: no uso do aplicativo de trânsito, nas redes sociais, nas empresas de gerenciamento de água/luz, de distribuição de alimentos, medicamentos, nos entretenimentos, em praticamente tudo, e, claro, eu faço uso de IA. O que questiono é sobre quando algumas pessoas a utilizam em substituição ao psicólogo, e o pior, quando entendem que receberam dela ótimos conselhos! Psicoterapia não é aconselhamento, nas sessões, estimulo o ser humano que está à minha frente para que pense, reflita e consiga decidir por si mesmo, pois os resultados de uma psicoterapia devem ser fatos, acontecimentos, atitudes e consequentes mudanças.
Seja na modalidade presencial, ou à distância (psicoterapia online), o encontro de dois seres em uma sessão de psicoterapia é insubstituível. Cansado de “conversar” com robôs de menus de sites e telefones? Procure um psicólogo, certamente, como diz o poeta, encontrará alguém “que tem sonhos e planos como qualquer um…”.
César Augusto – psicólogo
Texto publicado em Setembro de 2026
QUEM LEU ESTE TEXTO TAMBÉM LEU…
Psicoterapia Online: uma realidade!
