"Naquela noite, por nenhuma razão específica, eu saí para uma corridinha."Forrest Gump

          Desculpe-me o trocadilho, mas leia sem correrias, até o final, daí tire suas conclusões. Começo por perguntar se a corrida de rua estaria ficando doente, afinal, tenho feito e ouvido esta pergunta com relativa frequência. Talvez ela revele algo de que viemos falando há tempos: a correria atrás do relógio, a vida apressada que levamos, só que, dessa vez, representada literalmente por uma multidão que corre nas ruas.

         Em sua essência correr pode representar liberdade, afinal, quem corre o faz por gostar e por outros tantos motivos: por que faz bem ao corpo, porque alivia a mente, porque é um momento de encontro consigo mesmo, por proporcionar prazer, etc… A corrida ao ar livre é um dos esportes mais democráticos que existe, afinal (deveria ser assim), basta um tênis, disposição e vontade em sair de casa. Entretanto, aos poucos, algo parece ter mudado.

         A corrida, para muitas pessoas, deixou de ser apenas um exercício físico e passou a ser uma vitrine, pois o tênis precisa ser o de lançamento do momento, o relógio deve marcar mais do que os minutos, devendo monitorar cada detalhe e tornando-se um computador de pulso. A roupa precisa combinar, ser fabricada em tecidos específicos, cores do momento, estampa de grife ou de alguma equipe importante, de preferência com um treinador consagrado. Feito isto, as redes sociais transformam cada treino em conteúdo e performance, aliás, esta tornou-se uma das palavras preferidas da nossa época. E aí a doença começa.

         O esporte, que deveria ser uma experiência de prazer e saúde, passa a ser medido por gráficos, tempos, estatísticas e comparações, uma série de dados que acabam por gerar preocupações e metas que desaguam em um mal-estar emocional. Estresse (físico e psicológico), níveis elevados de ansiedade, alteração na estima quando o nível de cobrança é elevado por objetivos não atingidos, frustrações por treinar menos do que gostaria ou por não poder inscrever-se em mais eventos, afinal, há um elevado custo financeiro também.

         A linha de chegada parece nunca existir pois fazer cinco quilômetros já não parece suficiente, cobram-se dez, em seguida uma meia maratona e logo surge a necessidade de completar uma maratona oficial. E, quando esse objetivo é alcançado, aparece outro ainda maior, se não na quilometragem, mas na redução de pace (tempo em min/km), de peso, de descanso. É preciso melhorar a performance.

         Essa necessidade constante de superação talvez nos diga sobre a forma como estamos vivendo, quer em trabalho, na sociedade ou em casa; estamos em um tempo em que muitas das referências que davam sentido à vida perderam força, rituais de passagem desapareceram, as religiões ou a forma de tratarmos a espiritualidade ocupa um espaço diferente do que foi no passado. As famílias mudaram suas estruturas, seus horários e sua dinâmica, o convívio (presencial) em comunidades diminuíram, aulas são à distância e reuniões de pais nas escolas também, até aquelas discussões acaloradas em assembleias de condomínio viraram virtualidades. Não obstante, o trabalho tornou-se cada vez mais instável com profissões surgindo rapidamente ou criando novas exigências que antes não existiam, enquanto outras desaparecem. Em meio a tantas mudanças, muitas pessoas procuram um lugar onde possam construir identidade e pertencimento, e a corrida oferece exatamente isso.

          Mas a corrida deveria nos fazer bem. O problema surge quando ela deixa de ser um caminho para o bem-estar e passa a ser uma tentativa de preencher um vazio existencial ou uma forma de compensação às frustrações do cotidiano, e olhe que nem estou citando as dores físicas decorrentes de lesões, processo inflamatórios, desgastes ou fadiga crônica.

         Quem acompanha meus textos sabe o quanto incentivo a prática de atividades físicas. No consultório, frequentemente estimulo meus pacientes a encontrarem um esporte que lhes proporcione prazer, saúde física e equilíbrio emocional. A corrida continua por ser uma excelente escolha, desde que permaneça sendo um meio, e não um fim. Corra para cuidar da sua saúde, para encontrar amigos, para aliviar a ansiedade, para contemplar o amanhecer ou simplesmente porque isso faz você se sentir vivo. Mas observe com sinceridade o que você está buscando quando calça o tênis, pois, se a corrida deixou de trazer paz e passou a produzir angústia, culpa ou uma necessidade constante de aprovação, talvez não seja o corpo que precise desacelerar, mas a mente. Porque o maior risco não é correr demais, é transformar aquilo que deveria curar em mais uma fonte de sofrimento. Quer conversar sobre isso? Uma sessão de psicoterapia é o local ideal para a escuta, é onde o corpo para e passa a escutar a mente. Corra, mas com propósitos saudáveis, pois, como sempre digo, VIDA É MOVIMENTO!

César Augusto – psicólogo

Texto publicado em julho de 2026