Neologismo é o termo utilizado em nosso idioma para definir uma palavra nova, recém-criada. Foi assim que incorporamos palavras como “deleta”, com a finalidade de dizer a alguém para esquecer, apagar algo; ela provém do verbo em inglês “to delete” utilizado, inicialmente, na área da informática com a intenção de excluir ou apagar algum arquivo. A língua é viva, dizia-nos um professor, por isso também morre. Quem não lembra de alguma palavra que ouvia quando criança e hoje não a utiliza mais? Então o problema não está no surgimento de novos termos – atualmente, muitos oriundos da língua inglesa; – houve época em que a influência francesa em nosso idioma era grande, nos deixando até hoje o legado de palavras aportuguesadas como garagem, chofer, abajur, bibelô, toalete….
O que precisamos entender é sobre ao que servem quando novos termos/palavras surgem. Com o envelhecimento da população mundial, muitas políticas voltadas às pessoas idosas foram criadas, garantindo direitos e dignidade à esta faixa etária, ainda bem. Termos como melhor idade, outono da vida, idade dourada, foram e continuam sendo utilizados como eufemismos para a definição deste grupo.
Agora a palavra da vez é denominar-se “NOLT”, uma abreviatura de uma frase escrita em inglês “New Older Living Trend” que tem sido usada para definir pessoas com mais de 60 anos que não parecem, não agem e não vivem como alguém de 60+. Em resumo, tenta-se romper com o estereótipo tradicional da velhice, mas será que isso realmente transforma ou apenas disfarça?
O problema desses novos rótulos é que, ao evitarmos termos como velho, velha ou idoso, corremos um risco sério em reforçar o etarismo. Passa-se a tratar a velhice como algo que precisa ser escondido, maquiado, suavizado como se só fosse aceitável quem não aparenta ser velho. Assim, dizer que alguém é “NOLT” soa quase como um alívio: “tu não és velho!”.
A velhice pode (e deveria) ser encarada como mais uma etapa do ciclo vital, a da maturidade, a da aposentadoria, na qual, justamente, o idoso poderia dedicar-se mais às questões pessoais, à família, ao lazer, a atividades físicas e sociais em contrapartida a uma vida voltada quase que exclusivamente ao trabalho. Lembre-se de que um terço das horas de cada dia são destinadas ao trabalho, outro terço ao sono… sobra pouco para si mesmo.
Não se trata de romantizar a velhice, a qual pode se apresentar com limitações, com fragilidades, dores e dependências. Os rótulos acabam valorizando apenas um modelo elitizado: ativo, produtivo, jovem; na verdade, um velho que consegue performar juventude e que não parece um velho! Com isso, tornam invisíveis aqueles que envelhecem fora desse padrão, aqueles que vivem a velhice em sua forma mais comum, mais humana, ingerindo diariamente doses de remédios e muitos tratando de doenças. Há ainda outro efeito preocupante: esses termos podem deslocar o foco dos direitos e das políticas públicas para o consumo e para a estética, o que, ao invés de garantir condições dignas de envelhecimento, promove a ideia de que é preciso parecer jovem. Não é raro encontrar pessoas com mais de 60 anos que recusam benefícios (tais como vagas preferenciais ou cartões de estacionamento) porque sentem vergonha, como se reconhecer a velhice fosse sinônimo de perder valor.
Envelhecer é um processo social, político e natural e não deve ser escondido, nem padronizado. Precisamos nomear a realidade como ela é e lutar por uma velhice digna, plural e visível para todas as pessoas. A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia tem alertado justamente para isso: novos termos podem acabar mascarando a velhice em vez de nos ajudar a encará-la. Mais do que inventar categorias, o caminho está em transformar o significado do envelhecer, reconhecendo-o como parte legítima da vida e que pode ser vivido em praças, academias, em atividade sociais e físicas, ativamente.
Velhice não é doença e não precisa ser maquiada, precisa ser vista, porque quando o velho é visto, ele é lembrado. Quando é lembrado, pode, finalmente, ser respeitado. Diga não aos rótulos e estereótipos, haja naturalmente, seja você mesmo, aceite as transformações em seu corpo. Quer ajuda para encontrar seu lugar? Sessões de psicoterapia podem auxiliar num trabalho de autoestima e de valorização desta conquista: a da maturidade. Parabéns!
César Augusto – psicólogo
Especialista em envelhecimento humano
Texto publicado em abril de 2026
