Nos últimos dias duas notícias semelhantes chamaram a minha atenção: uma cantora, sucesso de mídia dos anos 80 foi encontrada morta, sozinha, dentro de sua casa. Morava em uma pequena habitação, sem familiares próximos, e estava há anos enfrentando dificuldades financeiras; foi preciso até mesmo de uma vaquinha feita por amigos e vizinhos para pagar seu funeral. Diga-se que, no auge de seu sucesso residiu em uma cobertura em Copacabana e, a convite, mudou-se para o Japão onde permaneceu por mais de dez anos. A outra notícia diz respeito a uma cantora da mesma época, igualmente conhecida nacionalmente e de muito sucesso na MPB, a qual, neste momento, está internada para um tratamento de uma infecção respiratória e depende de doações de amigos e fãs para poder custear a hospitalização e os procedimentos. Há pessoas que vivem como se não houvesse amanhã, sejam famosas ou anônimas.

          Dois temas pautam este texto: envelhecimento e planejamento para com a administração financeira. Se o primeiro é desejado e, consequência de anos de vida, o segundo, deveria receber os mesmos cuidados que dispensamos para com a saúde, o que, em poucas palavras, nada mais é do que viver prudentemente e em compatibilidade com suas rendas. Na sabedoria popular, significa não dar um passo maior do que a perna. Nenhuma nação será próspera se sua economia for deficitária; o mesmo vale para um micro cosmo: nenhuma família terá paz se as dívidas (finanças) forem maior do que a renda. Busca por empréstimos, realizações de trabalhos/horas extras, contenção de gastos que possam interferir no bem estar, na qualidade da alimentação, lazer, saúde, tudo isso acaba por adoecer o endividado. Bem, se você é jovem, saudável e tem forças para o trabalho, é possível que supere eventuais momentos de crise financeira conseguindo adequar-se em alguns meses. Mas, e quando isso “estoura”, torna-se insuportável no envelhecimento, numa idade onde oportunidades no mercado de trabalho são poucas, insatisfatórias ou inexistentes, ou ainda, quando não se tem saúde para cumprir jornadas diárias, deslocamentos, enfrentar intempéries…  o que fazer?

          Uma precária condição financeira* pode levar ao desenvolvimento de quadros de ansiedade, estresse ou depressão, por exemplo, e como consequência, este adoecimento emocional pode afetar a capacidade de tomada de decisões prejudicando o discernimento e algumas das funções mentais básicas, como atenção, memória, pensamento, afeto e conduta. Mas o alerta é de que o adoecimento do corpo vem junto, pois, noites mal dormidas, falta de apetite (carência nutricional e de hidratação), desleixo com condições de higiene, dentre outros, são vetores para tempos difíceis. (Precária condição financeira* neste contexto, engloba tanto a falta de dinheiro como o seu mau uso, os gastos desnecessários, endividamento.)

          Quero voltar agora para a reflexão que as notícias das cantoras causaram em mim: a de que precisamos ter um mínimo de prudência em nossas atitudes hoje! Se, por um lado, podemos dizer que um desejo universal, comum em todas as culturas é o de uma vida longa, é justo que a queiramos com saúde – aliás, um dos votos mais desejados às pessoas queridas em finais de ano ou ao cumprimenta-las em aniversários, é o de saúde, junto com o de felicidades e realizações. Então, viver muito, por óbvio, leva-nos ao envelhecimento, onde o corpo irá responder com mais lentidão, menos forças, com limitações decorrentes e, por vezes, com a dependência de que outras pessoas nos auxiliem. Daí a importância dos cuidados com as saúdes (própria e financeira). O erro está em pensar que isso não é “problema” para o agora.

          Para que esperar adoecer para buscar uma saída? Sessões de psicoterapia prestam-se ao trato de medidas preventivas para a manutenção da saúde. Poder conversar sobre planos futuros, assegurar-se de que uma vida equilibrada financeiramente possibilita a manutenção da saúde e que é assunto que diz respeito à família, é fundamental. Há filhos que esperam dos pais caros presentes que a condição econômica do momento não recomenda, cônjuges que planejam viagens, idas a festas e outros gastos sem saber a real condição financeira da família. Poder conversar com segurança com eles, sem constrangimentos, é sinal de maturidade e de prudência. É o primeiro passo para que, no futuro, não seja pego de surpresa com as mudanças, ou, com as voltas que a vida dá.

          Para encerrar, lembrei-me de outra cantora que há pouco tempo sofreu muito com um grave problema de saúde, vindo a falecer. Porém, diferentemente dos casos acima, por ter o apoio de uma família e condições financeiras favoráveis, teve recursos e acolhimento até seus últimos dias de vida. Refiro-me a Rita Lee, que em seu livro “Outra autobiografia”, apesar das precárias condições físicas, relata com um espírito muito lúcido os últimos três anos de sua jornada. E é dela a frase musicada em Saúde: “Quero mais, saúde… mas enquanto estiver viva e cheia de graça, talvez ainda faça um monte de gente feliz.”        

          Que possamos fazer um monte de gente feliz, quem sabe, começando por nós.

César Augusto – psicólogo

Texto publicado em agosto de 2025