Muito provavelmente após alguma viagem – à trabalho ou mesmo de férias- é possível que você já tenha vivido a experiência de sentir-se alegre em retornar para sua casa. E mais, por melhor que tenha sido o passeio é comum ouvirmos expressões do tipo “viajar é bom, mas estar em casa, é melhor ainda…”.
Pois o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, vencedor do Prêmio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades em 2025, apresenta uma proposta inusitada e que vai contra tudo o que a sociedade moderna prega: ficar em casa é a maneira mais inteligente de descansarmos. Segundo ele, é o momento em que podemos ficar longe de pressões sociais, tais como a de estar sempre produzindo, vestindo o que a ocasião exige (entenda imposição social; vá fazer uma palestra de bermudas e chinelos para ver como será tratado), sorrindo para selfies, enfrentando filas, pagando para estacionar na rua, para entrar, para sair, para respirar.
Bem, não sou extremista, este texto se propõe a uma reflexão sobre o quanto pode ser bom saber viver na própria casa, em intimidade, viver consigo mesmo, não estou (alô polarizadores de plantão) excluindo a outra possibilidade, a de viajar. Poderia descrever um rol de infinitas vantagens e alegrias que uma viagem pode propiciar, mas aqui, o enfoque é outro.
Em sua obra “A sociedade do cansaço” o filósofo nos mostra a incrível mudança que a modernidade nos trouxe; ele parte do princípio que vivemos uma sociedade onde cada pessoa se tornou um empresário de si mesmo que se auto explora até o esgotamento total. Diferentemente do modelo clássico, onde havia claramente um patrão explorando funcionários, hoje exigimo-nos o tempo todo, acreditando que isso é liberdade e realização pessoal, que seremos melhores na concorrência, quando na verdade é tão somente uma forma mais sofisticada de dominação. E isso vai além do trabalho: podem ser as ditas metas pessoais para o Ano Novo ou então, quando nos comparamos aos outros ou nos iludimos de que precisamos ser felizes e que temos de mostrar isso às pessoas de nossas relações, conhecidos ou totais desconhecidos do mundo virtual. Para Byung Han, esta ilusão tornou-se a nova forma de dominação na sociedade atual “Vivemos bombardeados por mensagens que dizem que precisamos estar sempre felizes, otimistas, realizados e mostrando nossos sucessos para o mundo, criando uma angústia profunda quando não conseguimos atingir esse estado permanente de alegria que simplesmente não existe na experiência humana real.” (citação de Carlos E dos Santos).
Mas não basta apenas ficar em casa, tacitamente. É preciso estar ativo pois vida é movimento! Agora, um detalhe: tenha a consciência de viver para si, chega de dar tanta importância aos outros. E isso exige mudança de hábitos e o uso de um mapa pessoal (em inglês, MAP, que serve como um acrônimo para nos orientar – esta é a real função de um mapa!). A letra M para lembrar MOVIMENTO, o do corpo e o da mente, o de aproximação a outras pessoas, o da busca por contatos reais. ALIMENTAÇÃO começa pela letra A, e me refiro àquela que te faz bem e que ajude a cuidar de ti. Por fim, nosso mapa termina com a letra P, enfatizando sobre a importância da qualidade de nossos PENSAMENTOS, pela necessidade de não nos preocuparmos com coisas que muito provavelmente nunca irão acontecer e nos dedicarmos mais a criações mentais positivas e de ânimo (sobre isso já escrevi no texto “Uma nova forma de psicoterapia” *disponível em meu site).
Ficar em casa é bom… não é à toa que por cortesia dizemos a nossos visitantes “sintam-se em casa”. Mais um detalhe: a casa, que me referi neste texto, vai além do nosso habitat; pense sobre como é bom viver em paz em sua casa mental, em sua consciência, no verdadeiro encontro (como diria Jung) com o Si mesmo. Quando você diz que “no fundo, no fundo, gostaria de estar fazendo outra coisa…” este é você mesmo, se desobrigando de imposições. Quer ajuda para entrar nesta casa? Uma boa psicoterapia pode te alcançar a chave.
César Augusto – psicólogo
Texto publicado em Janeiro de 2026
